29.11.06
Passeava-se, mecânico, o soldado do eterno dever, pelas ameias do castelo do seu confinamento. De quarto em quarto ao berro da torre «sentinela alerta!», repetia, como se a um eco respondesse ensonado, «alerta está!».
Passeava-se, solitário, pelo confinamento ao lugar do dever vigilante, o mecânico soldado, alerta estando, já quase sem o estar.
Um dia, em que o sol, respeitoso, se resguardou, num intervalo da vigília, pelo interstício das ameias, entre as veredas escarpadas do que devia e a guarita de onde sonhava o que não podia, viu-a, enfim.
Altiva de porte, tímida de olhar, a princesa cativa de seus devaneios, olhava, como se ausente, os espaços em volta, o verde da terra e o azul dos céus.
Foi então que tudo sucedeu. Ninguém sabe, sonha ou adivinha o que há, mas todas as tardes desde aquele dia de então o sol empalidece, piedoso, e entre as sombras da inesperada penumbra a irrealidade acontece, a do eclipse dos sentidos, a noite dos desejos, o alvorecer da esperança.
19.11.06
Vida de sonâmbulo
Esta noite, durante um segundo sono, sonhei que o meu trivial barbeiro tinha transformado a barbearia numa «casa de todos os prazeres» segundo ele, convencional, um vulgar homem de meia-idade como tantos outros, afável como poucos e timorato na expressão, me explicava, com um toque de concupiscência discreta no olhar.
À vista nada de enxergava, salvo as mesmas cadeiras de barbeiro, as paredes forradas agora de ladrilho branco pintado em estilo cubista.
Havia, é certo uns aparelhos de ginástica, uma mesas com umas revistas e cinzeiros e ao fundo um vulgar restaurante, bem pior que a cervejaria do lado.
Mas como ele me disse que também tinha alugado o andar de cima, ao qual se acedia por uma desventrada escada exterior, calculo que os outros «prazeres» fossem por lá.
Mas como ele me disse que também tinha alugado o andar de cima, ao qual se acedia por uma desventrada escada exterior, calculo que os outros «prazeres» fossem por lá.
Acordei, porém, sem chegar a saber quais!
Tudo isto me parece confuso, tal como ter acordado indecentemente a estas horas, já passa das onze!
Mas no fundo, talvez nem tenha sonhado este sonho, mas o haja vivido, sonâmbulo, quando nada se enxerga, nem mesmo a concupiscência no olhar!
Mas no fundo, talvez nem tenha sonhado este sonho, mas o haja vivido, sonâmbulo, quando nada se enxerga, nem mesmo a concupiscência no olhar!
3.11.06
Os anjos caídos
O hotel tinha uma porta giratória, que rodopiava, lenta, como numa valsa incessante, folha a folha, uma flor de pétalas envidraçadas e desabrochantes. Chegaram, com segundos de diferença. Ante a fugidia entrada, sem hesitar avançaram, precipitando-se para o interior de um dos gomos daquela farândola. Ensarilhados, porém, os ágeis corpos no curto espaço, frutos sumarentos numa trituradora, por momentos parecia que se desintegravam. Mas saíram, num jacto de colorido e de risinhos, paraquedistas de diversão, o risco de uma perna partida. Uma delas torcera o tornozelo, à outra abrira-se-lhe, ridícula, a malinha. Estateladas no sofá em frente, entre o descomposto e o divertido, retorciam-se de provocação. Foi então que hesitei quanto à verdadeira natureza daqueles seres. As esguias pernas escancaradas, saias mínimas desalinhadas, eram homens e descuidados. Resolvido, enfim, um problema que afligiu teólogos e animou exegetas: a bondade do Senhor é tal que, mesmo o Maligno, luciferino e sucubo, é na sua origem um anjo, um anjo caído. Faltava dizer, no Hotel Albion.
22.3.06
Na mão de Deus
Trazia-a na mão enclavinhada, como se na vida, nada mais lhe restasse, a última moeda do pedinte, o derradeiro pedaço roído de pão de um faminto. Sentiu-me, talvez, compreensível ou pelo menos paciente ouvinte da sua história. Só que ele não tinha uma história. Na mão desbotada, negra pela raça, esmaecida pela idade, guardava-a, dissimulando-a no bolso, uma pequena pedra, polvilhada de cintilantes pigmentos. «É quartzo, dotôr, lindo, né, quase como único», sorriu-me um esgar de miseráveis dentes, o semblante a abrir num esforço de forçado entusiasmo. «Parece diamante, eu sei», respondi-lhe, a querer trocar gentileza, animando-o. «Muitos camanguistas foram com isso aldrabados, não foi?», ainda lhe atirei, como se a provocá-lo no fundo das suas raízes. «Ó doutor, o xôr é tamém d'Angola, tá visto!, para saber o que são camanguistas..». Sou de facto de Angola, só por lá ter nascido. «Muito preto enganou branco, sabe o dotôr, só com isto, eh!». De facto, para variar, muito preto enganou branco. Normalmente dá-se um euro aos arrumadores, como ele. Como quem paga o bilhete do espectáculo, dei-lhe mais um. Prometeu-me uma escultura em pedra. Amanhã encontramo-nos uma vez mais. Eu num forçado entusiasmo, ele cintilante de pobreza, cinzelando diamantes como se quartzos fossem.
11.3.06
O mitra das cinco
A rua, a noite, com a sua negritude e as suas sombras traziam mais frio ainda àquele corpo enregelado pelo relento, esfomeado de sono, moído da dureza do improvisado desvão onde dormitara. Via-se na profundidade daqueles olhos miúdos, uma tal ausência que é como se o alheamento lhe tivesse começado pelo não querer ver. Estávamos poucos em torno do improvisado balcão. Mastigava-se em silêncio, a alegria de um dia que começa trocada pela indiferença de mais um dia que se viveu. Como se fosse um de nós, como se a sua marginalidade fosse emprego, o remexer caixotes modo de vida, o embrulhar-se em papelões pudesse ser uma forma de ter casa, ouviu-se-lhe, num murmúrio de lábios enclavinhados, um familiar tenho fome. Só que era uma fome diferente da nossa fome, a fome milenária dos que não têm para comer, envergonhando o nosso apetite. Foi então que, num gesto de irmão, e com ele estávamos todos, noctívagos e madrugadores, o dono daquele modesto café, come-em-pé de mini-pratos dos empregados alheios, envolvendo-o como uma forma amável de lhe sorrir, lhe trouxe um café. E «vá lá, ó mitra», tira aí um bolinho, que sempre aconchegas o estômago! Eram cinco da manhã. Na rua em frente chegavam os primeiros autocarros e com eles a enchente do pequeno-almoço.
28.2.06
A Torre de Babel
Foi depois do Dilúvio. Os filhos de Noé, que com ele saíram da Arca, foram Sem, Cam e Jafé. «Esses três foram os filhos de Noé e a partir deles se fez o povoamento de toda a terra». Assim reza o Antigo Testamento.
Dispersos pelo mundo, rumaram então os homens para o Oriente e ali, na terra de Senear, a Babilónia, encontraram um vale, onde se estabeleceram e construíram uma cidade e uma torre, cujo ápice penetrava nos céus, a que se deu o nome de Babel. Vem no Pentateuco.
Todo o mundo se servia, então, de uma mesma língua e das mesmas palavras e, tendo a mesma língua, era um só povo. Para a sua torre erguerem, do tijolo que é pó fizeram pedra, do mole betume, que é lama, a argamassa.
À força de serem um só, ergueram-se às portas do céu. Conta-se no Génesis.
Foi então que Iahweh desceu sobre a terra e disse: «Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isto é o começo das suas iniciativas! Agora nenhum desígnio será irrealizável para eles». E, por isso, os dispersou por toda a terra e confundiu toda a linguagem. É esta, na Bíblia, a história da Torre de Babel.
A narrativa da Torre de Babel é uma história exemplar, uma daquelas paisagens que se atravessam em diferentes direcções e, de cada ângulo, é sempre uma visão diversa que se tem do mesmo mundo.
No ângulo teológico ela é perturbadora da fé, porque aflige a crueldade de Iahweh, o senhor Deus, e os erros de que o Todo-Poderoso é, afinal, capaz. Iahweh, por causa de ter o homem, que ele criara à sua imagem e semelhança, comido o fruto proibido, havia lançado sobre a humanidade a danação eterna. E isto só porque, ao comê-lo, ao pomo da árvore da sabedoria, o homem se havia tornado, afinal, «versado no bem e no mal».
Iahweh, porque havia criado a maldade no homem, sobre o que o não queria versado, e vendo que «a maldade do homem era grande sobre a terra e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração», arrependeu-se, ele que é o Sapientíssimo, de ter criado o homem e decretou, ele que é o Sumo Amor, a sua erradicação da face da terra, mais os animais, os répteis e todas as aves do céu. E, assim, com instinto assassino, Iahweh lançou o dilúvio sobre a terra. Só Noé escapou, porque Noé «encontrou graça aos olhos de Iahweh».
É assim no Antigo Testamento: por causa do pecado original de Adão, pagam todos os da humanidade, sem culpa; porque Deus se arrependeu de ter gerado a maldade no homem, que criara semelhante a si, arrasou maldosamente a humanidade.
E, ao escapar Noé, nem se entende se foi por ser «justo e íntegro entre os seus contemporâneos», se foi porque, entre os da «terra pervertida», Noé «encontrou graça aos olhos de Iahweh».
Faltava só que, tendo Deus prometido para consigo que não mais amaldiçoaria a terra por causa do homem, tendo Deus feito mesmo uma aliança com todos os homens e animando-os a que se multiplicassem, povoassem a terra e a dominassem, assim eles, com a torre de Babel, tomaram a primeira das suas iniciativas, logo Ele os confundiu e dispersou.
Estranha teodiceia esta, que tais achados nos traz: erro, culpa, castigo, pecado, vingança, extermínio, acaso, graça, ambição, iniciativa, perversão e poder, está tudo aqui nesta narrativa que é «das origens do mundo e da humanidade», onde nos surpreende um Deus divino mas, visto seu comportamento, humano, demasiado humano.
A torre de Babel que sempre me impressionou foi, porém, a que coloca existencialmente o homem perante a sua condição absurda. A ambição, o sonho de grandeza, o ideal de imortalidade, tudo o que faz do homem o ladrão do fogo dos deuses, precipitam-no na queda abismal: é a danação do homem, condenado à sua natureza mortal. A pluralidade, a diversidade, a originalidade criativa, aquilo que lança Ícaro pelos céus do sonho, exilam-no para a sua condição degredada de estrangeiro na sua própria pátria. Joguete cego às mãos do acaso, instrumento de uma natureza maligna que não criou mas é obra do Criador, o homem caminha, inexorável, e com ele tudo quanto é vivo, para o patíbulo da morte mais cruel, afogado na penitência da sua culpa.
Vivemos hoje um século de confusão. Porventura mais grave, e que nos irá condenar, é termos confundido, a Ocidente, a Babel simbólica com a Babilónia terrestre e termos querido, imitando Deus, confundi-la e dispersá-la.
Tal como Xerxes I [479 AC], tal como Alexandre, o Grande [331 AC], esquecemos que nas margens do rio Eufrates está o lugar sagrado da aliança entre o homem e o seu Deus, «a casa do fundamento do céu e da terra».
Dispersos pelo mundo, rumaram então os homens para o Oriente e ali, na terra de Senear, a Babilónia, encontraram um vale, onde se estabeleceram e construíram uma cidade e uma torre, cujo ápice penetrava nos céus, a que se deu o nome de Babel. Vem no Pentateuco.
Todo o mundo se servia, então, de uma mesma língua e das mesmas palavras e, tendo a mesma língua, era um só povo. Para a sua torre erguerem, do tijolo que é pó fizeram pedra, do mole betume, que é lama, a argamassa.
À força de serem um só, ergueram-se às portas do céu. Conta-se no Génesis.
Foi então que Iahweh desceu sobre a terra e disse: «Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isto é o começo das suas iniciativas! Agora nenhum desígnio será irrealizável para eles». E, por isso, os dispersou por toda a terra e confundiu toda a linguagem. É esta, na Bíblia, a história da Torre de Babel.
A narrativa da Torre de Babel é uma história exemplar, uma daquelas paisagens que se atravessam em diferentes direcções e, de cada ângulo, é sempre uma visão diversa que se tem do mesmo mundo.
No ângulo teológico ela é perturbadora da fé, porque aflige a crueldade de Iahweh, o senhor Deus, e os erros de que o Todo-Poderoso é, afinal, capaz. Iahweh, por causa de ter o homem, que ele criara à sua imagem e semelhança, comido o fruto proibido, havia lançado sobre a humanidade a danação eterna. E isto só porque, ao comê-lo, ao pomo da árvore da sabedoria, o homem se havia tornado, afinal, «versado no bem e no mal».
Iahweh, porque havia criado a maldade no homem, sobre o que o não queria versado, e vendo que «a maldade do homem era grande sobre a terra e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração», arrependeu-se, ele que é o Sapientíssimo, de ter criado o homem e decretou, ele que é o Sumo Amor, a sua erradicação da face da terra, mais os animais, os répteis e todas as aves do céu. E, assim, com instinto assassino, Iahweh lançou o dilúvio sobre a terra. Só Noé escapou, porque Noé «encontrou graça aos olhos de Iahweh».
É assim no Antigo Testamento: por causa do pecado original de Adão, pagam todos os da humanidade, sem culpa; porque Deus se arrependeu de ter gerado a maldade no homem, que criara semelhante a si, arrasou maldosamente a humanidade.
E, ao escapar Noé, nem se entende se foi por ser «justo e íntegro entre os seus contemporâneos», se foi porque, entre os da «terra pervertida», Noé «encontrou graça aos olhos de Iahweh».
Faltava só que, tendo Deus prometido para consigo que não mais amaldiçoaria a terra por causa do homem, tendo Deus feito mesmo uma aliança com todos os homens e animando-os a que se multiplicassem, povoassem a terra e a dominassem, assim eles, com a torre de Babel, tomaram a primeira das suas iniciativas, logo Ele os confundiu e dispersou.
Estranha teodiceia esta, que tais achados nos traz: erro, culpa, castigo, pecado, vingança, extermínio, acaso, graça, ambição, iniciativa, perversão e poder, está tudo aqui nesta narrativa que é «das origens do mundo e da humanidade», onde nos surpreende um Deus divino mas, visto seu comportamento, humano, demasiado humano.
A torre de Babel que sempre me impressionou foi, porém, a que coloca existencialmente o homem perante a sua condição absurda. A ambição, o sonho de grandeza, o ideal de imortalidade, tudo o que faz do homem o ladrão do fogo dos deuses, precipitam-no na queda abismal: é a danação do homem, condenado à sua natureza mortal. A pluralidade, a diversidade, a originalidade criativa, aquilo que lança Ícaro pelos céus do sonho, exilam-no para a sua condição degredada de estrangeiro na sua própria pátria. Joguete cego às mãos do acaso, instrumento de uma natureza maligna que não criou mas é obra do Criador, o homem caminha, inexorável, e com ele tudo quanto é vivo, para o patíbulo da morte mais cruel, afogado na penitência da sua culpa.
Vivemos hoje um século de confusão. Porventura mais grave, e que nos irá condenar, é termos confundido, a Ocidente, a Babel simbólica com a Babilónia terrestre e termos querido, imitando Deus, confundi-la e dispersá-la.
Tal como Xerxes I [479 AC], tal como Alexandre, o Grande [331 AC], esquecemos que nas margens do rio Eufrates está o lugar sagrado da aliança entre o homem e o seu Deus, «a casa do fundamento do céu e da terra».
11.11.05
O instinto do sol
Sentado nesta sala vazia, visto o mundo por estas extensas janelas, um sentimento de cinzento invade-me a alma azul. Estou num hotel internacional de um aeroporto internacional, por causa do atraso de um voo intercontinental. Nada há rigorosamente que eu possa fazer, nenhum sítio onde eu possa ir, ninguém com quem possa falar. Estou entre o mundo do artificial, a luz néon, o ar condicionado, o chão alcatifado. Tudo é novo, tudo está limpo, tudo está deserto. No exterior a noite chegou há momentos, gelar-se-à de frio, ao que imagino, vislumbram-se, porque as vejo, silhuetas de automóveis velozes nas auto-estradas circundantes. Nenhum destes jornais me apetece ler, nenhuma das centenas de canais de televisão me acicata a curiosidade. Uma saudade de casa estrangula-me a garganta. Daqui a uma hora talvez já possa jantar, numa sala vazia. Pela madrugada retomo a viagem, se não houver mais contratempos. Foi então que a vi. Talvez tivesse perdido uma ligação ou estivesse em trânsito. Naquele local imenso, hangar soturno de passageiros desolados, a essência da sua pessoa, despertou-me o instinto do sol e o desejo de viajar.
3.11.05
Amanhã se puder
Rua velha, rua de sarjetas que se confundem com os passeios emporcalhados, ruas de edifícios a morrerem, esboroando-se, era por ali abaixo que se seguia. De quando em vez a aparência de coisa nova, uma loja chinesa, e nela tudo refulgente, a simular em plástico uma qualidade que não havia, tudo a um preço que espicaçava o desejo de comprar a mais. De cabeça no ar, seguia eu, atento a cada montra. Tinha-me esquecido do número da porta, ou pior do sítio onde o assentara. Como num carrocel de cores, cruzando comigo, drogarias como já não há, saldos de roupa de bébé, uma lavandaria, um formigueiro comercial desdentado aqui ou além por um trespassa-se com ar de eternidade, um volto já a prometer brevidade. O dia vinha mal encarado. Chovia copiosamente e as goteiras pingavam geladas com uma pontaria daquelas que atingem irritantes a nuca, escorrendo pescoço abaixo a sua gélida mensagem, a da garantia que daqui a pouco vem uma aberta. Eu sabia, por uma experiência feita de varetas retorcidas de guarda-chuvas e gabardinas que se esquecem na mala do carro, esta regra primária do chover que é parar quando, encharcados que nem pintos, chegamos, enfim, a um lugar abrigado. E era esta lei fatal da vida pluviométrica que eu remoía quando, quase sem avisar, ela me surgiu. Era ali, precisamente onde menos se esperava, ao fim da rua e de um longo caminhar. Faltava o imprevisto a apoucar o meu esforço e a pôr à prova a minha pertinácia. Hoje, o único dia de que eu tinha aquele momento breve, era o dia de encerramento. Todos tinham direito a uma folga, a deles era à terça-feira. Volto amanhã se puder. Mas com um pouco de azar, esqueço-me disto, do mau momento, dos sapatos alagados, a roupa amarrotada de húmida, o suor a salgar-me a moral, e voltarei outro dia, se calhar a uma terça-feira. Tudo é possível, até eu repetir-me no que não quero.
25.10.05
A apatia do sono
Sentado no canto de uma mesa daquele ruidoso local, entre o cheiro da gordura e o desalmado da iluminação, havia um homem que fumava. Tudo lhe parecia indiferente, como se aquele local não fosse aquele onde se encontrava. Em seu redor, entre o tilintar de chávenas, rosnava o moinho de café em grão, uma televisão sem som agredia o vazio com imagens sem nexo. Foi então que chegaram ao balcão os estudantes do curso nocturno, as meias coladas de húmidas por um dia inteiro de sapatos a devorarem-lhes os pés. O homem que fumava indiferente ao local, como se não fosse aquele onde se encontrava, soergueu-se, então. Cabisbaixo, como se de vergonha pela sua condição, saíu, enfim porta fora. Os estudantes do curso nocturno apressaram o café que fingia de jantar. Carregando o peso de todas as agonias do mundo, esforçando-se uma vez mais por chegar a horas, ali ia o seu professor. Entre o desejo de futuro dos seus alunos, ele tentava lembrar-se do melhor do seu passado. Todos os anos repetia, pela noite fora, a aulas moídas de cansaço e embotadas de sono, a mesma ladaínha. Autómato de uma função, no final do semestre, o homem voltava ao princípio, com novos alunos e a mesma apatia.
19.10.05
Inútil voltar
Presa ao lado de dentro, estava já no patamar da escada, no limiar da porta, no limite da decisão. Era, enfim, o dia de sair. A seu lado uma mala, dois sacos, as chaves na mão. Inútil fechar a porta, para quê fechar a porta, de quem fechar a porta! E, no entanto, aquela porta marcava a fronteira da ilusão. Quantas vezes, olhando-a de dentro, se projectou na imagem de a transpor, se acompanhou no acto de a franquear. A ideia do que poderia ter ficado acotovelou-a, porém. Quanto do que parece precisarmos, pode ficar, afinal, na hora de sair. Presa ao lado de dentro, decidiu-se. Dobrava a esquina da rua quando se lembrou do que deixara. Inútil voltar. Não se recupera nunca uma vida por viver.
18.10.05
A silhueta
Primeiro, era o modo de vestir e o vestido, a maneira de sorrir e o sorriso. Depois era o rosto por debaixo do sorriso, a pele por detrás do vestido. Enfim, as ideias que a cabeça albergasse, os desejos que o corpo exigisse. Estava na janela de um café, como se na amurada de um navio, à balaustrada de uma varanda. Voltei ao princípio, agora pela ordem inversa, cabeça primeiro, rosto depois, sorriso, enfim. A cada uma das coisas, juntava outra. Momentos depois, entre sorrisos e desejos, mais um café, se faz favor também se usa, perguntava-me o que é a essência e a circunstância, o substantivo e o qualificativo. A criatura, entretanto, soergueu-se, como se soerguem as demais criaturas. Um sentimento de vulgaridade envolveu-lhe a silhueta. Ao cruzar-se com a porta voltou para trás. Por momentos o mundo ficou em suspenso. Ao tique taque do meu relógio interior, recomecei, do modo de vestir ao despido, do modo de sorrir à gargalhada estridente. Desventrado no meu ridículo, sentia-me como se diante do absurdo. Era, porém, o meu dia de sorte. Nada daquilo tinha a ver comigo. Regressara afinal por causa dos cigarros. Esqueci-me deles, ainda me disse, como se em justificação para ter voltado, não fosse eu ter ilusões.
17.10.05
Cópias quantas
As histórias que aqui se contam são curtas, porque a vida é menos longa do que esperam os velhos e mais supreendente do que desesperam os novos. Hoje chovia aquela chuva que vista das janelas sebentas dos cartórios notariais faz pensar nas hortas que lá ficaram na santa terrinha. Já não se aguarda tanto por uma abertura de sinal ou por um reconhecimento presencial. Mas entre públicas-formas e justificações prediais, lá vai serpenteando aquele friso humano de rurais que a Lisboa se acolhem a sonhar com o dia do regresso às agruras dos agros conterrâneos. Entre diuturnidades e emolumentos, lá há, entre ajudantes e amanuenses, quem, contrafeito, os atenda. E a vida comercial segue assim o seu calvário, as parcelas loteadas assim mudam de mão em mão. No meio de tudo isto eles queriam fazer um testamento. O insólito era o pouco que havia para legar e a ainda menos do que pouca esperança de que a vida lhes trouxesse mais com que abastecer a voragem expectante dos herdeiros. Quais pardalitos esfaimados bicando o vazio, eles ali estavam os presuntivos herdeiros, conduzindo os mortos-vivos dos seus de cujus ao momento da assinatura a rogo. Testaram. Ao descerem as escadas, encafuados num táxi, seguiram para o lar do final indiferente. Tinham-se esgotado naquilo. Cópias quantas, perguntara, indisposto, o oficial do cartório. Basta uma, rosnaram os contemplados, uma chega para nós. Nós eram eles, naturalmente, pois quem mais haveria de ser! Aos testadores, já nada interessava nem dizia respeito. Aos tantos de tal, tinham outorgado.
16.10.05
Bolachas Maria
Elas vinham na camioneta para Lisboa, como se Lisboa fosse possível, e como se algo fosse possível em Lisboa. É que isto de ter uma idade em que a vida desponta é uma mola contra a fatalidade do lugar onde estamos e contra a inevitabilidade da família onde calhámos. E, por isso, elas vinham para a cidade, na camioneta da carreira; ficara-lhes a família já carpindo adeus, deixaram o lugar enfim com um vago até um dia. A bem dizer hoje nem há disso a que eu, que as vi e aqui as descrevo, escrevendo-as, chamo como a camioneta da carreira. Mas, seja como for ou seja, aquilo rodoviário em que todos vínhamos, chegámos, enfim. A esta hora dorme-lhes a família no esquecimento, ressonam os do lugar a indiferença. A história é assim: elas, que eram duas, vinham possíveis, eu, que somos muitos, vinha absolutamente impossível. Tudo o mais eu poderia ficcionar agora. A realidade, porém, é que entre risinhos, lhes caíu das mãos um pacote de bolachas. É que, questão fundamental, de que eu já me esquecia, elas comiam bolachas. Ora os leitores sabem que em matéria de bolachas há as estaladiças e as pulvurentas e que, enquanto numa mesa fina e burguesa, pela hora do chá, o embaraço das migalhas se resolve com uma escovinha e há as de casquinha de prata e crina sedosa, ali, na camioneta da carreira tudo se resume com uma soprar convicto e um sacudir enérgico. Cheguei há pouco. Como não tinha jantado e estava sozinho lembrei-me das bolachas e de elas as duas, por esta ordem, precisamente. A esta hora, cansadas da viagem, devem ressonar uma vida indiferente. Amanhã pela manhã, atulhadas com outras iguais, transportam-se pela cidade, em busca de uma vida possível. Uma delas chama-se Cátia Maria.
Um livro em vinte dias
1. Sento-me diante de uma folha de papel em branco. Tenho vinte dias para escrever um livro.
Não sei que livro escreva; tantos livros são possíveis, tantos livros são inúteis, tantos os que já foram irremediavelmente escritos.
Paro na palavra irremediável, sinto-a como parte dos meus pesadelos, o definitivo da vida, o inexorável do viver.
E, no entanto, hoje, este sábado de manhã, surgiu-me a ideia primeiro, e logo com ela, e como seu efeito, a alucinação do que ela em si continha.
O jornal anunciava um prémio literário e eu li nele uma forma de me salvar.
No fundo eu tinha da literatura a ilusão do leitor. Tudo o que nela perpassa de espontaneidade eu julgava fruto de um acaso, obra de um instante. Mas agora, sentado a esta mesa, incapaz de articular palavra, eu sei o que é o esforço, o martelar palavras, cinzelando-as, esboroando-se elas nas minhas mãos, esfacelando-as eu, sim às mãos, à força de martelar.
2. Estamos no segundo dia, sem que eu consiga sequer escrever mais do que ficou acima, eu que tinha projectado um livro em duzentas páginas em vinte dias, ao ritmo de dez páginas em cada dia.
Sinto que, a continuar assim, estou perdido.
E, no entanto, eu quero ganhar um prémio, eu determinei-me a escrever, não por qualquer vontade nobre ou digna sequer de um escritor, mas pelo motivo mesquinho e utilitário de, pura e simplesmente, querer ganhar um prémio com um livro de duzentas páginas, escrito em vinte dias. E com isso, mas isso é problema meu, salvar-me pela ficção da morte pela realidade.
Que seguramente vinte dias de mim dão tema para vinte livros, nem que fossem livros de nada, narrativas de coisa nenhuma, de tal modo são áridos tantos dias e vazias algumas noites.
E, por isso, com a abundância de vinte dias pela frente para escrever, afinal, um só livro desses vinte, eu tenho uma tal provisão de tempo, que chega-me a causar riso como é possível que eu me angustie com o problema.
Mas será que há problema?
Claro que há problema, o único problema digno desse nome e filosófico, o de não querer eu morrer assassinado no naufrágio do real, o de querer embarcar na barcaça da literatura e com ela rumar a uma qualquer Atlântida que haja ou que sobeje ou que se invente.
Estamos no segundo dia e eu a escrever, enfim, ou talvez menos, ou talvez antes, a descer às profundezas do eu, galerias insondáveis onde restem ainda uns remanescentes possíveis não conhecidos não banalizados, não iguais a todos os demais, e, sobretudo, que não rimem ridiculamente, nisso tornando-se vulgares.
E é esta ânsia de invulgaridade que quero tornar livro, com ela ganhar um prémio, com ela salvar-me. É humano, é justo e sobretudo, é compreensível para quem tem cinquenta e seis anos.
3. Vamos ao a-propósito: o que leva um vivo a querer não morrer sabendo que morre? E digo-o com a propriedade atenta de quem está atento às palavras que escreve, pois eu não falo do vivo que não querer morrer, mas daquele outro vivo, como sou eu, que quer não morrer. E não me repliquem, como se a um trocadilho, por não ser de sofismas que se trata, nem de argúcias retóricas de malabares verbais. Pois vós, leitores distraídos do que escrevo, ou leitores prevenidos da escrita, vós mesmos, membros do júri destes vinte dias de escrita, sabei, e não volto a dizê-lo, quanto há de definitiva revolta no «não querer» e quanto conformismo comum no «querer não», essa forma de dizer sim ao não, por não haver força de alma para que se diga, enfim, não ao sim.
4. Descoberto, em suma, que o vivo quer não morrer, quase nem interessa o saber que sabe que morre. É que isso é a ciência do inevitável de tudo quanto na terra há e talvez no cosmos, e talvez mesmo para além do cosmos. Adiante pois, sus! Para essas banalidades funerárias, viva a a vida e o que ela trás de esperançoso e magnífico, como esta explêndida possibilidade de ganhar um prémio em vinte dias com um livro de duzentas páginas.
5. Ora vem a propósito a ideia de que possívelmente eu não sei ainda neste momento de que escreva ou como escreva, o que é verdade.
Seguramente que com pouco tempo, compreendem todos quantos isto lerem, que aproveito o tempo pensando e escrevendo e pensando sobretudo como haverei de escrever. E digo mesmo que se, ao limite dos vinte dias, dezanove tiverem sido, ou das duzentas páginas, cento e noventa e nove houverem sido, gastas e consumidas em pensar como, e uma só, em um só dia, for enfim, o que, afinal, há para dizer, poderemos todos, eu que escrevo e eles que lerem, ufanar-nos do resultado, glorificar o produto, cantar o milagre da multiplicação. Há, no firmamento literário, quem diga menos em mais. Eu, ao menos, tenho bitola certa e calendário seguro: não mais do que vinte dias não menos do que duzentas páginas.
6. Qualquer editor digno desse nome, com casa posta, ansiaria ter-me como escritor. Que não há pior tirano do que criador da obra contínua, do verborreico a metro cúbico de papel. Atulham-se pacientes armazéns dos segundos, aguardam nervosas tipografias os primeiros. Eis a obra monumental que não vende, a obra prima que não sai, os dois flagelos virulentos da actividade editorial, sustentadas à conta de todos os outros, os da literatura comestível, com prazo certo e dimensão ajustada.
7. Por isso, os que ainda aí estiverem já sabem que, comigo, podem contar. Daqui a vinte dias há livro e a lombada de capa é à medida de duzentos fólios. Poder-se-à ser mais amigo de quem faz dos livros negócio?
8. Vinte dias pois, e agora que vamos a findar o segundo e, a propósito, está a chover, é talvez tempo de pensar no que escrever. Ora a bem dizer eu não faço neste momento ideia nenhuma, o que é razoável, porque, afinal, é uma obra que está em princípio, como todas as obras que começam, com uma diferença. E essa diferença é que em todas as outras que se conhecem, quando aparecem estão já feitas, são o produto, o resultado e o efeito. Tudo o que nelas há de anterioridade, de antecedente, de preparação, ficou nas gavetas do autor, no cesto dos seus papéis, nas toalhas dos cafés por onde andou, sei lá se pelos recantos das amigas que frequentou, enquanto. Isso, enquanto, exactamente, a palavra certa e explícita. Aqui o leitor tem o benefício do enquanto.
Ao ler este livro tem o privilégio de ler o livro tal como ele se faz.
Primeiro, descobre do autor os intentos, mesmo os mais rasteiros, como a ânsia de arrecadar um prémio, ou os mais pugentes, como o querer salvar-se com ele.
Depois, surpreende-o no zero absoluto das ideias, esse momento universal em que os génios e os patetas se irmanam, vazios e ocos, sem um lampejo sequer.
Enfim, vêem a chispa da criacção, o fumo do criar, as labaredas do que se criou.
Quando chegar ao fim, não é que o leitor e o escritor terão escrito um livro, é um livro que terá sido escrito ante os olhos do leitor pelas mãos do escritor.
Se isto fosse um prefácio, prefaciado estava o livro. O leitor, todos os leitores, mesmo os senhores membros do júri, já perceberam: neste momento, em que encerra o segundo dia, não há livro, nem ideia sequer sobre o que possa ser. Um momento destes, excepcional e magnífico, só se vive uma vez. A partir daqui tudo é possível, todos os livros podem vir a ser: mil, duzentas e oitenta e duas palavras, essas já cá cantam.
Não sei que livro escreva; tantos livros são possíveis, tantos livros são inúteis, tantos os que já foram irremediavelmente escritos.
Paro na palavra irremediável, sinto-a como parte dos meus pesadelos, o definitivo da vida, o inexorável do viver.
E, no entanto, hoje, este sábado de manhã, surgiu-me a ideia primeiro, e logo com ela, e como seu efeito, a alucinação do que ela em si continha.
O jornal anunciava um prémio literário e eu li nele uma forma de me salvar.
No fundo eu tinha da literatura a ilusão do leitor. Tudo o que nela perpassa de espontaneidade eu julgava fruto de um acaso, obra de um instante. Mas agora, sentado a esta mesa, incapaz de articular palavra, eu sei o que é o esforço, o martelar palavras, cinzelando-as, esboroando-se elas nas minhas mãos, esfacelando-as eu, sim às mãos, à força de martelar.
2. Estamos no segundo dia, sem que eu consiga sequer escrever mais do que ficou acima, eu que tinha projectado um livro em duzentas páginas em vinte dias, ao ritmo de dez páginas em cada dia.
Sinto que, a continuar assim, estou perdido.
E, no entanto, eu quero ganhar um prémio, eu determinei-me a escrever, não por qualquer vontade nobre ou digna sequer de um escritor, mas pelo motivo mesquinho e utilitário de, pura e simplesmente, querer ganhar um prémio com um livro de duzentas páginas, escrito em vinte dias. E com isso, mas isso é problema meu, salvar-me pela ficção da morte pela realidade.
Que seguramente vinte dias de mim dão tema para vinte livros, nem que fossem livros de nada, narrativas de coisa nenhuma, de tal modo são áridos tantos dias e vazias algumas noites.
E, por isso, com a abundância de vinte dias pela frente para escrever, afinal, um só livro desses vinte, eu tenho uma tal provisão de tempo, que chega-me a causar riso como é possível que eu me angustie com o problema.
Mas será que há problema?
Claro que há problema, o único problema digno desse nome e filosófico, o de não querer eu morrer assassinado no naufrágio do real, o de querer embarcar na barcaça da literatura e com ela rumar a uma qualquer Atlântida que haja ou que sobeje ou que se invente.
Estamos no segundo dia e eu a escrever, enfim, ou talvez menos, ou talvez antes, a descer às profundezas do eu, galerias insondáveis onde restem ainda uns remanescentes possíveis não conhecidos não banalizados, não iguais a todos os demais, e, sobretudo, que não rimem ridiculamente, nisso tornando-se vulgares.
E é esta ânsia de invulgaridade que quero tornar livro, com ela ganhar um prémio, com ela salvar-me. É humano, é justo e sobretudo, é compreensível para quem tem cinquenta e seis anos.
3. Vamos ao a-propósito: o que leva um vivo a querer não morrer sabendo que morre? E digo-o com a propriedade atenta de quem está atento às palavras que escreve, pois eu não falo do vivo que não querer morrer, mas daquele outro vivo, como sou eu, que quer não morrer. E não me repliquem, como se a um trocadilho, por não ser de sofismas que se trata, nem de argúcias retóricas de malabares verbais. Pois vós, leitores distraídos do que escrevo, ou leitores prevenidos da escrita, vós mesmos, membros do júri destes vinte dias de escrita, sabei, e não volto a dizê-lo, quanto há de definitiva revolta no «não querer» e quanto conformismo comum no «querer não», essa forma de dizer sim ao não, por não haver força de alma para que se diga, enfim, não ao sim.
4. Descoberto, em suma, que o vivo quer não morrer, quase nem interessa o saber que sabe que morre. É que isso é a ciência do inevitável de tudo quanto na terra há e talvez no cosmos, e talvez mesmo para além do cosmos. Adiante pois, sus! Para essas banalidades funerárias, viva a a vida e o que ela trás de esperançoso e magnífico, como esta explêndida possibilidade de ganhar um prémio em vinte dias com um livro de duzentas páginas.
5. Ora vem a propósito a ideia de que possívelmente eu não sei ainda neste momento de que escreva ou como escreva, o que é verdade.
Seguramente que com pouco tempo, compreendem todos quantos isto lerem, que aproveito o tempo pensando e escrevendo e pensando sobretudo como haverei de escrever. E digo mesmo que se, ao limite dos vinte dias, dezanove tiverem sido, ou das duzentas páginas, cento e noventa e nove houverem sido, gastas e consumidas em pensar como, e uma só, em um só dia, for enfim, o que, afinal, há para dizer, poderemos todos, eu que escrevo e eles que lerem, ufanar-nos do resultado, glorificar o produto, cantar o milagre da multiplicação. Há, no firmamento literário, quem diga menos em mais. Eu, ao menos, tenho bitola certa e calendário seguro: não mais do que vinte dias não menos do que duzentas páginas.
6. Qualquer editor digno desse nome, com casa posta, ansiaria ter-me como escritor. Que não há pior tirano do que criador da obra contínua, do verborreico a metro cúbico de papel. Atulham-se pacientes armazéns dos segundos, aguardam nervosas tipografias os primeiros. Eis a obra monumental que não vende, a obra prima que não sai, os dois flagelos virulentos da actividade editorial, sustentadas à conta de todos os outros, os da literatura comestível, com prazo certo e dimensão ajustada.
7. Por isso, os que ainda aí estiverem já sabem que, comigo, podem contar. Daqui a vinte dias há livro e a lombada de capa é à medida de duzentos fólios. Poder-se-à ser mais amigo de quem faz dos livros negócio?
8. Vinte dias pois, e agora que vamos a findar o segundo e, a propósito, está a chover, é talvez tempo de pensar no que escrever. Ora a bem dizer eu não faço neste momento ideia nenhuma, o que é razoável, porque, afinal, é uma obra que está em princípio, como todas as obras que começam, com uma diferença. E essa diferença é que em todas as outras que se conhecem, quando aparecem estão já feitas, são o produto, o resultado e o efeito. Tudo o que nelas há de anterioridade, de antecedente, de preparação, ficou nas gavetas do autor, no cesto dos seus papéis, nas toalhas dos cafés por onde andou, sei lá se pelos recantos das amigas que frequentou, enquanto. Isso, enquanto, exactamente, a palavra certa e explícita. Aqui o leitor tem o benefício do enquanto.
Ao ler este livro tem o privilégio de ler o livro tal como ele se faz.
Primeiro, descobre do autor os intentos, mesmo os mais rasteiros, como a ânsia de arrecadar um prémio, ou os mais pugentes, como o querer salvar-se com ele.
Depois, surpreende-o no zero absoluto das ideias, esse momento universal em que os génios e os patetas se irmanam, vazios e ocos, sem um lampejo sequer.
Enfim, vêem a chispa da criacção, o fumo do criar, as labaredas do que se criou.
Quando chegar ao fim, não é que o leitor e o escritor terão escrito um livro, é um livro que terá sido escrito ante os olhos do leitor pelas mãos do escritor.
Se isto fosse um prefácio, prefaciado estava o livro. O leitor, todos os leitores, mesmo os senhores membros do júri, já perceberam: neste momento, em que encerra o segundo dia, não há livro, nem ideia sequer sobre o que possa ser. Um momento destes, excepcional e magnífico, só se vive uma vez. A partir daqui tudo é possível, todos os livros podem vir a ser: mil, duzentas e oitenta e duas palavras, essas já cá cantam.
